quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Decadência.

 



Me sinto tão cansada. Minha energia se esvai de meu corpo, minhas veias secam e pálpebras parecem pesar tanto que mal consigo carregá-las. Sinto cansaço 24h, parece que não tenho forças para nada. A cada horror que vejo, a cada bomba, a cada bombardeio, a cada casa destruída, a cada família e pessoa morta, a cada alma despedaçada e a cada escombro, sinto como se os desabamentos e as mortes ocorressem dentro de mim. Sinto um cansaço da alma. Minha alma se esfarela em ruínas. 


Quando ando, me sinto como se estivesse atravessando um lamaçal, cada movimento exige uma força fora do normal, e o ar fica difícil de vencer como se tivessem mudado as leis da física. O tecido da realidade torna-se espesso como concreto e deito de lado quase em posição fetal por entre uma rachadura que encontro entre a beirada da calçada e o asfalto da rua. 


Ali parece tão aconchegante, carros passam com toda a velocidade, aquela sensação de perigo logo ao lado parece tornar aquele lugar ainda mais agraciado. Um bálsamo em meio ao caos. Por vezes um carro passa e me molha devido a chuva que caíra a pouco, mas como reclamar daquela bela rachadura que encontrei para descansar? O concreto áspero parece tornar a textura mais macia por onde posso recostar como uma almofada, e o calor absorvido durante o dia me aquece soltando aos poucos enquanto deito, me aquecendo mesmo que o frio após a chuva e o entardecer tenha chegado. A borda do beiral da calçada é de uma curva suave e redonda, de forma que torna muito confortável por vezes sair daquela rachadura e apoiar a cabeça ali. Recosto suavemente as minhas bochechas naquela borda da calçada. Por ser uma parte extremamente sensível do meu corpo, posso sentir aquela textura quase como fundi-la em minhas células. Minha pele assume o formato daquela superfície, e marcas de bolinhas vermelhas e escuras ficam em meu rosto como se fossem uma tatuagem temporária. Amigos desconhecidos da rua me perguntam se eu me machuquei, eu nego e digo que não é nada e que havia sido extremamente prazeroso.


De repente um susto. Um carro escapa do seu curso normal e sem querer bate no beiral da calçada por onde eu me espreitava. Com o impacto da batida eu voo para o alto em meio ao aço das passarelas e começo a levitar por entre espirais viscosas que aos poucos se enlaçam abrindo os meus braços. Dependurada por essas espirais pelos braços sou depositada na calçada de forma graciosa. Ao ficar em pé, como se tivessem vida própria elas se desenroscam aos poucos de meus braços e corpo e se desvanecem de forma tão misteriosa quanto surgiram. Livramento. Por pouco não sou vítima daquele infortúnio.


O que seriam aqueles tentáculos misteriosos? Teriam sido os fios do poste? Não sei, eles são verdadeiros super heróis. Agradeço todos os dias pelo que fizeram por mim. Da rua faço a minha religião. Me prostro de joelhos e venero aqueles fios como santos sagrados. Obrigada por nos resguardar e nos mostrar o caminho todos os dias.


Encontro pela rua os meus irmãos de fé, e seguimos a caminhada rumo ao bom, ao bem, ao amor, ao caminho correto e à salvação. Tento conseguir mais adeptos, mas alguns parecem ter outro foco e objetivos. Outros não entendem: "O que são aqueles bando de malucos que veneram postes e acham que na vida se dá bem e da certo com quem é bonzinho? Aqui só se vence o mais forte, aquele que tem mais estratégia, experiência, artimanhas e sabe tirar vantagem do máximo de situações que conseguir. Pobres coitados, não vão conseguir nada". Outros sentem ódio e raiva: "Que bando de malucos são esses? Vou fazer de tudo para acabar com essa gente. Estão achando que são quem?? Querem tirar vantagem?? Vou acabar com essa palhaçada e esse teatro rapidinho. Eles vão ver quem é que manda".


Aquelas pessoas com quem troco e passeio no caminho por entre as ruas, calçadas, bairros, avenidas, esquinas, becos, estreitos, muros, locais escuros e iluminados, vão me alimentando e dando sentido a minha vida. Aos poucos a alegria vai voltando e me preenchendo da energia que antes se esvaíra.


Encontro um propósito, e tento levar outros comigo.




  • Pintura "Paysage avec lac et chimères" (Paisagem com Lago e Quimeras) de Max Ernst (1940)




quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Pequena estrela


Estou presa imóvel em uma costura estática que entre seus pontos e linhas rasgam minha pele nos lençóis. Aqui jaz o futuro e o passado, de onde todos os caminhos passam. O presente se perde no limbo da incerteza, de seus infinitos abismos, céus, lagos e alvoradas. Vejo uma luz distante vermelha, que vai se pondo se transformando em laranja e depois na escuridão. As estrelas se entremeiam num céu pálido, macio e aconchegante.

Deitada aqui imóvel, busco alinhar os objetos em sua posição perfeita, mística, para chamar e receber em totalidade as bênçãos espirituais. Anjos anunciam a sua chegada de tempos em tempos, me dando o combustível para cada amanhecer. Sinto falta profunda do aconchego, do acolhimento, da proteção e do afago. Parece que um pedaço de mim se foi, e a fraqueza toma conta de mim me drenando por completo. Como um pedaço que está faltando, me sento, inclino minha cabeça e entremeio delicadamente uma de minhas mãos pelos cabelos com os dedos abertos, os fechando levemente, como se pelas pontas dos meus dedos eu pudesse recuperar aquilo que eu era. Me levanto com dificuldade com os cabelos esvoaçados caindo como a cachoeira dos lamentos, e sigo em direção ao rumo inevitável daquilo que não pode deixar de ser feito.

Como recuperar aquilo que saiu? Será que eu perdi pelo caminho? Ou será que me tiraram? Será que um dia vão me devolver? Ou será que eu serei capaz de me devolver?

Executo em cada nota o sentimento de um oceano abiçal, cada uma meticulosamente calculada e cronometrada. As notas pingam como gotas em um lago, vibrando até o fundo do universo da alma de vastidão monumental. Tangencio as cordas da existência como a varinha de uma bruxa.

A alma retorna aos poucos mas a fraqueza parece algo inerente da minha existência. As olheiras nunca vão embora, e os cabelos caem como em eterna redenção.

Marco o caminho com as pegadas dos meus feitos, para nunca esquecer de onde eu vim. Meus pés, mãos e boca vão desenhando o rumo da minha história, pedindo as mudanças necessárias para que as coisas melhorem.

Escrevo a minha história na Terra para que eu possa desencarnar em paz.

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Rexistir




As poucas vezes que tive felicidade e liberdade foram com quatro coisas que me mantém viva e plenamente livre,
a minha verdade,
a minha família e amigos,
a música,
a escrita.

A inocência foi embora a muito tempo. Era tão bom ter 20 anos. Virava as páginas da vida ávida por lê-las, e tomar ciência de todos os seus pormenores. Na adolescência até esta idade, a vida também parecia um tanto mais interessante.

Hoje me vejo muito mais madura, porém, a sensação que me dá é que tudo que vejo são páginas viradas, livros que já foram devera lidos de cabo a rabo, folheados, virados de ponta cabeça, e fitados de cima abaixo.

Ao mesmo tempo parece que aquela mesma menina inocente ainda habita em mim, como que esperando que algo seja ainda capaz de reascender a crença na vida novamente.

Como é possível ser feliz num mundo onde você é tratada como um ser insignificante, que sequer é capaz de pena, compaixão, paixão e que não lhe dão direito sequer à fala, desejo, escolha ou opinião? Afinal, você é considerada um ser menor, menos ser humano. Na verdade, sequer é vista como um ser humano.

Penso a todo momento o que vim fazer aqui. Sinto todos os dias que nada do que eu faço é suficiente para expressar toda a minha verdade, a minha dor e o meu amor, e o que vim trazer para este planeta. As minhas obrigações dragam 99% daquilo que eu gostaria de fazer e tenho a oferecer, e eu lembro de todas as mulheres que não puderem ser nada por tantos anos na história da humanidade por conta do machismo, e das poucas que conseguiram fazer, e que sofreram centenas de anos de epistemicídio. Muitas estão ainda sendo descobertas agora.

A rua é tão acolhedora. Nos arcos encontramos a nossa família. Pessoas que também fazem parte da nossa família, e fizeram parte da nossa história. Juntas contamos a história do Rio de Janeiro, a história que os homens brancos e colonos jamais irão contar.

Frequentamos a casa da Madame Satã, de Brigitte de Buzios, Jane Di Castro, Rogéria, de Luana Muniz, Majorie Marchi, Chiquinha Gonzaga, Eric de Jesus, Alessandra Makkeda, João Nery, Marielle Franco e tantas outras.

A menina que habita em mim continua viva e com o mesmo desejo e energia de mudança, mesmo que com ela muitos pedaços se vão pelo caminho, mas outros são acoplados.

O mundo não é o mundo que gostaríamos, mas estamos ainda lutando por ele.





  • "A rosa meditativa" - Salvador Dali (1958)






sexta-feira, 12 de julho de 2024

O poço.




Ando para o mesmo lugar tentando encontrar algo, mas afundo como areia movediça. Procuro mas não acho nada no lugar. Tenho certeza que tem alguma coisa ali, mas é tão difícil alcançar. Quanto mais eu me movo tentando sair, mais eu afundo cada vez mais. Tento escapar do destino inevitável, mas é impossível. Há forças muito maiores operando, que lhe dragam por completo para dentro, e é impossível para qualquer um escapar. Como um buraco negro, ele engole tudo, e nada escapa ao redor. Sou engolida para dentro de mim mesma, e vou parar neste lugar aterrorizante. Entro em pânico, mas tento manter a calma. Só de olhar para o penhasco já dá frio na barriga. O vazio abissal que lá jaz me faz cair em queda livre. Numa meta-queda caio em mim mesma e afundo nas minhas muitas existências. Parece infinito. Será que irei cair para sempre? Existe um fundo?


Chego ao fundo, ergo as mãos para o céu e agradeço. Faço uma oração, e dou graças ao senhor. Deitada ali no chão, em posição fetal, olho à minha frente, e não vejo nada.



Pintura "A Persistência da Memória" de 1931 do Salvador Dali.

quinta-feira, 11 de julho de 2024

Mumificação.

 











A pior mordaça é a invisível.


Pintura "Criança geopolítica assistindo o nascimento de um novo homem" de 1943 de Salvador Dali.

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Caixa de Pandora.



Desaguo minhas águas contaminadas em mim mesma. Não posso expôr, não posso falar. A cada dia que passa, me sinto mais amordaçada. Mas a cada dia que passa, em contrapartida, me sinto com mais sede de lutar. A cada negativa, a cada mão no pescoço, a cada apinéia, a cada rompimento, a cada abandono, a cada indiferença, a cada desvalorização. A cada dia que passa, esta dor se transforma em luta, e não há nada que depois será capaz de me segurar. Posso ficar amordaçada por muito tempo. Mas não para sempre.

domingo, 21 de abril de 2024

Atual.





Me sinto atual.











Obra de Dali entitulada: "Jovem Virgem Autossodomisada pelos Chifres de sua Castidade - Salvador Dalí"