Me sinto tão cansada. Minha energia se esvai de meu corpo, minhas veias secam e pálpebras parecem pesar tanto que mal consigo carregá-las. Sinto cansaço 24h, parece que não tenho forças para nada. A cada horror que vejo, a cada bomba, a cada bombardeio, a cada casa destruída, a cada família e pessoa morta, a cada alma despedaçada e a cada escombro, sinto como se os desabamentos e as mortes ocorressem dentro de mim. Sinto um cansaço da alma. Minha alma se esfarela em ruínas.
Quando ando, me sinto como se estivesse atravessando um lamaçal, cada movimento exige uma força fora do normal, e o ar fica difícil de vencer como se tivessem mudado as leis da física. O tecido da realidade torna-se espesso como concreto e deito de lado quase em posição fetal por entre uma rachadura que encontro entre a beirada da calçada e o asfalto da rua.
Ali parece tão aconchegante, carros passam com toda a velocidade, aquela sensação de perigo logo ao lado parece tornar aquele lugar ainda mais agraciado. Um bálsamo em meio ao caos. Por vezes um carro passa e me molha devido a chuva que caíra a pouco, mas como reclamar daquela bela rachadura que encontrei para descansar? O concreto áspero parece tornar a textura mais macia por onde posso recostar como uma almofada, e o calor absorvido durante o dia me aquece soltando aos poucos enquanto deito, me aquecendo mesmo que o frio após a chuva e o entardecer tenha chegado. A borda do beiral da calçada é de uma curva suave e redonda, de forma que torna muito confortável por vezes sair daquela rachadura e apoiar a cabeça ali. Recosto suavemente as minhas bochechas naquela borda da calçada. Por ser uma parte extremamente sensível do meu corpo, posso sentir aquela textura quase como fundi-la em minhas células. Minha pele assume o formato daquela superfície, e marcas de bolinhas vermelhas e escuras ficam em meu rosto como se fossem uma tatuagem temporária. Amigos desconhecidos da rua me perguntam se eu me machuquei, eu nego e digo que não é nada e que havia sido extremamente prazeroso.
De repente um susto. Um carro escapa do seu curso normal e sem querer bate no beiral da calçada por onde eu me espreitava. Com o impacto da batida eu voo para o alto em meio ao aço das passarelas e começo a levitar por entre espirais viscosas que aos poucos se enlaçam abrindo os meus braços. Dependurada por essas espirais pelos braços sou depositada na calçada de forma graciosa. Ao ficar em pé, como se tivessem vida própria elas se desenroscam aos poucos de meus braços e corpo e se desvanecem de forma tão misteriosa quanto surgiram. Livramento. Por pouco não sou vítima daquele infortúnio.
O que seriam aqueles tentáculos misteriosos? Teriam sido os fios do poste? Não sei, eles são verdadeiros super heróis. Agradeço todos os dias pelo que fizeram por mim. Da rua faço a minha religião. Me prostro de joelhos e venero aqueles fios como santos sagrados. Obrigada por nos resguardar e nos mostrar o caminho todos os dias.
Encontro pela rua os meus irmãos de fé, e seguimos a caminhada rumo ao bom, ao bem, ao amor, ao caminho correto e à salvação. Tento conseguir mais adeptos, mas alguns parecem ter outro foco e objetivos. Outros não entendem: "O que são aqueles bando de malucos que veneram postes e acham que na vida se dá bem e da certo com quem é bonzinho? Aqui só se vence o mais forte, aquele que tem mais estratégia, experiência, artimanhas e sabe tirar vantagem do máximo de situações que conseguir. Pobres coitados, não vão conseguir nada". Outros sentem ódio e raiva: "Que bando de malucos são esses? Vou fazer de tudo para acabar com essa gente. Estão achando que são quem?? Querem tirar vantagem?? Vou acabar com essa palhaçada e esse teatro rapidinho. Eles vão ver quem é que manda".
Aquelas pessoas com quem troco e passeio no caminho por entre as ruas, calçadas, bairros, avenidas, esquinas, becos, estreitos, muros, locais escuros e iluminados, vão me alimentando e dando sentido a minha vida. Aos poucos a alegria vai voltando e me preenchendo da energia que antes se esvaíra.
Encontro um propósito, e tento levar outros comigo.
- Pintura "Paysage avec lac et chimères" (Paisagem com Lago e Quimeras) de Max Ernst (1940)

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